FERIADO DE TIRADENTES: CONSTRUÇÃO DE UM HERÓI NACIONAL

 

Fonte Imagem: Reprodução/ Estado de Minas
Link: https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/04/20/interna_gerais,289961/mais-de-200-anos-apos-sua-morte-tiradentes-segue-sem-um-rosto.shtml

Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, foi um membro importante da Inconfidência Mineira. Ele tinha pensamentos separatistas sobre Minas Gerais e a metrópole Portugal, desejando que a tornasse uma República. Entretanto, embora essas ideias tenham sido bastante importantes para nossa História, será que ele era o único do movimento? Por que comemoramos um feriado somente dele?

 

O Brasil era ainda uma Colônia, e a população de Minas Gerais, estava bastante cansada das taxações sobre o ouro advindo da mineração. Formou-se, então, um grupo pertencente, majoritariamente, à elite socioeconômica, dentre eles, a figura de Tiradentes. Várias reuniões aconteceram e ele era um dos membros mais participativos do movimento. Entretanto, antes que os planos fossem concluídos, foram denunciados e, como consequência disso, Tiradentes foi sentenciado à morte, esquartejado e suas partes corporais expostas para servir de exemplo, para que não houvesse outros movimentos separatistas no Brasil.

Dessa maneira, compreende-se que as perguntas do enunciado deste post não são muito simples de serem respondidas. Tiradentes teve sim um papel importante na História do Brasil, através da participação da Inconfidência Mineira, só que a construção de sua história pode ser interpretada de diferentes maneiras.

 

ADVENTO DA REPÚBLICA DO BRASIL E A NECESSIDADE DE ENCONTRAR UM HERÓI NACIONAL

 

Antes do advento da República no Brasil, Tiradentes não tinha tanta importância que se teve após esse evento. Hoje em dia existem diversas pesquisas que tentam compreender quem era Tiradentes e, algumas, mostram como na época do Brasil Colônia ele não tinha a imagem que temos nos dias de hoje. Como forma de ilustração, segue um trecho de um fragmento de Joaquim Norberto de Souza Silva, escrito em 1881, sobre como era a imagem de Tiradentes:

 

Fonte: Reprodução/ Documento de Joaquim Norberto de Souza Silva

 

Percebe-se que Tiradentes, pela ótica do escritor Joaquim Silva, foi um homem que era patriota forte e se transformou em uma figura mais religiosa no momento de sua execução. Não configurando necessariamente em uma imagem heroica como nos dias atuais.

Entretanto, anos mais tarde da Inconfidência Mineira, com a transformação de um Império em República, seria necessário que a antiga figura da Família Real, até então representante da centralização política do Brasil Império, fosse diluída e deslocada para um herói que fosse a favor de uma emancipação política. E ainda mais, que essa nova personalidade tivesse uma imagem de uma pessoa que pudesse ser identificada pela população brasileira através do “sacrifício” de Tiradentes para salvar seu “povo”.

Assim, sem nenhuma imagem real encontrada de Tiradentes, foram feitas várias representações que foram associadas e comparadas, inclusive, com o sacrifício de Jesus Cristo no momento de sua morte. Por isso, Tiradentes possui muitas representações, imagéticas e monumentais, lembrando o rosto de Jesus, ainda que provavelmente, através de pesquisas mais recentes, supõe-se que no momento de sua morte ele se encontrava de cabelos e barbas raspados – costume da época do tratamento de prisioneiros. Além do mais, pelo posto de alferes que ele já tinha alcançado, provavelmente a imagem dele poderia ser semelhante a um militar da cavalaria Real.

 

Assista AQUI um vídeo do canal no Youtube chamado Nerdologia, que explica com mais detalhes sobre a figura de Tiradentes no contexto da Inconfidência Mineira.

 

Desta forma, a maneira como concebemos a ideia de Tiradentes, ainda é muito associada à construção de uma memória para a legitimação política dos militares na República Velha. Tendo uma história ainda muito vinculada a história dos “grandes homens” e para a manutenção de uma memória do poder dominante da época.

Nesse sentido, é importante refletirmos que a Inconfidência Mineira foi um dos pontapés iniciais para que as primeiras ideias emancipacionistas fossem disseminadas e, por isso, um momento muito importante para o nosso país. Entretanto, é bom que compreendamos que para além dessas construções históricas, devemos lembrar que era um movimento elitista, que tiveram vários outros membros e, que também não defendia a abolição da escravatura (como na Conjuração Baiana). Ou seja, grande parte da população não foi incluída nesse movimento. Devemos também ressaltar que Tiradentes era um homem no tempo dele, com crenças formuladas através de um contexto histórico em que ele vivia.

 

Gostou do conteúdo? Comente como você aprendeu sobre Tiradentes e que outras visões você tinha dele.

 

Referência:

 

BALLAROTTI, Carlos Roberto. A Construção do mito de Tiradentes: de mártir republicano a herói cívico na atualidade. Antíteses, v. 2, n. 3, p. 201-225, 2009.

SILVA, Joaquim Norberto de Souza et al. O Tiradentes perante os historiadores oculares de seu tempo: resposta a um injusto reparo dos críticos da História da Conjuração Mineira. 1881.

 

Comentários

  1. Muito interessante, Paula. A Inconfidência mineira é um assunto que gosto bastante. Já li algumas coisas e vejo como aprendi na escola de forma distorcida, sem essa análise que você faz.

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  2. Ótima abordagem. Gosto muito do assunto, cresci absorvendo inúmeras história sobre Tiradentes, na cidade de Ouro Preto e não me canso de procurar conhecer mais. 👏👏

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  3. Como faz falta um registro histórico como a fotografia!!!

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