O CACAU É HISTORICAMENTE UM PRODUTO MUITO VALORIZADO

 


Em um período em que o preço dos ovos de chocolate está desanimando muita gente de comprá-lo para presentear alguém na Páscoa, é interessante saber um pouco mais sobre os aspectos históricos do cacau. Por isso, hoje vou mostrar a importância HISTÓRICA em que o cacau adquiriu, desde o período da colonização das Américas, até os dias atuais.

 

E aí, leitor? Você tem ideia de onde foram encontrados os primeiros registros do cacaueiro (Theobroma cacao)? Pois bem, segundo Antonio Porro, doutor em Antropologia pela USP, o mais antigo registro dessa planta foi encontrado onde existiu as civilizações Maias, que hoje se localiza na região Mesoamérica (México, Guatemala, Belize etc.). Segundo o pesquisador, o tema cacau foi encontrado, em formato de hieróglifos, em inscrições pintadas nos vasos Maias, que hoje podem ser decifrados e lidos como: “Vaso para beber cacau witik, cacau kox”. Esse indício faz com que pesquisadores da área da antropologia atribuam uma maior importância do cacau como um fruto bastante valorizado, já há 3000 anos atrás por civilizações pré-colombianas. Isso porque, juntamente a essas evidências, e com os relatos de espanhóis que tiveram contato com outras civilizações originárias das Américas (como os Astecas e Incas), concluiu-se que o cacau já era utilizado como bebida tônica e também como moeda de troca entre os povos nativos. Mas, não se engane de pensar que o cacau foi encontrado somente na América espanhola. Na América portuguesa, principalmente na região da Amazônia, essa planta também foi encontrada e comercializada entre nossos nativos.

Em outras civilizações antigas, como as dos Astecas, o cacau já era um produto valorizado, pois, era uma bebida que era utilizada pela nobreza e também como forma bebida tônica para os guerreiros. Além do mais, os Astecas tinham como um de seus objetivos conquistar regiões que tinham grandes quantidades de Theobroma cacao, haja vista a importância que essa planta tinha para essas sociedades.

É interessante ressaltar que o europeu, ao chegar nas Américas, se chocou com os hábitos culinários dos indígenas, já que, esses povos tomavam essa bebida pura misturada com água fria e, por vezes, era complementada até com pimenta. Para o paladar europeu, essa bebida não tinha harmonização, entretanto, logo começaram a adaptar essa bebida com o uso do caldo de cana de açúcar, canela e anis e, a partir disso, a bebida (com adaptação dela quente) se tornou também um artigo de luxo entre a nobreza europeia. Assim, o cacau se tornou tão valorizado que suas “amêndoas” eram utilizadas até como moeda de troca. Para exemplificar, após a chegada do europeu nas Américas, um sujeito escravizado era equivalente a 3000 a 4000 amêndoas de cacau. Logicamente que, nesse momento, eram os espanhóis e portugueses quem determinavam o valor da “moeda cacau”.

Quando a bebida cacau chegou em solo europeu, logo foram desenvolvidas outras técnicas culinárias. A princípio, para melhor exportação as amêndoas eram trituradas e depois prensadas em tabletes. Assim, para consumir a bebida, era só adicionar água quente e depois o tablete com açúcar. Posteriormente, na Europa é que essa bebida foi chamada de chocolate, muito provavelmente pela analogia que fizeram a nomenclatura Maia “chocol” (quente) com a asteca “atl” (água) e, portanto, água quente.

Após o século XVII, o chocolate passou a ser não somente a bebida como também um doce. Primeiro virou um artigo de luxo entre a nobreza, passando, posteriormente, no século XVIII, com a ascensão da burguesia, um consumo também da classe média. Em 1828, o holandês Van Houten patenteou a industrialização do chocolate. Era utilizada uma prensa hidráulica que extraía do cacau moído “a gordura” (manteiga) e o restante era processamento com sais alcalinos, para que a bebida pudesse ser melhor misturada na água, e se tornar mais digesto para o organismo humano. Depois a empresa J. S. Fry & Sons de Briston, passou a formular o chocolate com a manteiga de cacau fracionada e também açúcar, podendo ser moldado em tabletes. Somente com o suíço, Daniel Piter, que a ideia de incorporar leite em pó nessa mistura fez nascer, então, o chocolate ao leite. Como o chocolate ao leite demanda um menor acréscimo de cacau, o preço da produção se tornou mais baixa e, então, o chocolate se tornou um produto popularizado.

Agora que você já sabe que o cacau, ingrediente do chocolate, veio dos nossos povos originários e que sempre fez parte da nossa cultura. Além do mais, os europeus foram responsáveis por tornar um produto conhecido pelo mundo e, também, tonou o chocolate um produto industrializado. Ou seja, as Américas, na condição de Colônia, tiveram o cacau como um produto explorado pelos europeus como uma matéria prima, enquanto, a Europa o industrializou e tornou um produto mais refinado e, por consequência, mais rentável.

Gostou do conteúdo? Mostre para alguém que está comendo chocolate nesse momento.

Um abraço virtual, hoje em especial, em todos os chocólatras!

 

Referência:

PORRO, Antonio. Cacau e chocolate: dos hieroglifos à cozinha ocidentel. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, v. 5, p. 279-284, 1997.

Comentários

  1. Como um produto tão gostoso quanto o chocolate se transforma ao longo do tempo, mas mantém a sua essência. Não conhecia a história do cacau. 👏👏👏

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    1. Nós nem percebemos, mas o mundo está em constantes mudanças...

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  2. Fiquei curiosa em saber o gosto da bebida fria que os indígenas faziam com cacau! Sera difícil encontrar receitas?

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    1. Acredito que nosso paladar não acostumaria com o amargo do cacau puro e apimentado hahshs

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