AS PRESSÕES SOBRE HISTORIADORES PARA UMA HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE


A história do tempo presente é um tema que traz muitos questionamentos a nós historiadores, já que, desde que entramos na nossa graduação, somos ensinados que uma historiografia deve ser elaborada de maneira mais imparcial que se conseguir fazer, ainda que seja impossível a neutralidade na História. Por sermos seres humanos dotados de ideologias e posicionamentos sobre as questões sociais, e a escrita ser bastante subjetiva, o ideal é um distanciamento temporal dos eventos.

Como cursei em uma Universidade Federal minha graduação em História, que tem como um de seus intuitos, a formação para atuação na pesquisa; com bastante frequência ouvia de meus professores que, embora impossível a imparcialidade, devemos sempre procurar ser o mais neutro possível, baseando-se principalmente no que as fontes históricas tem a nos dizer e no embate de diversas versões historiográficas.

Entretanto, a história do tempo presente apresenta suas peculiaridades. A princípio, um dos maiores problemas é a própria definição. O que seria a história do tempo presente? Ainda não há um consenso entre os historiadores sobre o que definiria esse tipo de escrita da história (Ou pelo menos eu não conheço o consenso). Eu mesma não sou especialista nessa área, por isso estou me embasando no artigo de Lucilia de Almeida Neves Delgado e Marieta de Moraes: História do tempo presente e ensino de história. Essa é uma publicação da revista História Hoje da APUH.

Baseado nesse artigo, uma das concepções sobre esse tipo de historiografia é a de que se trata de assuntos da contemporaneidade, com traços de imediatismo, da história recente e atual. Outros autores já relatam que o a história do tempo presente é de um passado próximo, em que as testemunhas ainda estariam vivas e que elas poderiam tecer críticas sobre o trabalho dos historiadores. Pode ser que, parte da rejeição de uma parcela de historiadores, seja da maneira como a História, enquanto disciplina, foi formalizada. Não estamos tão habituados a trabalhar com as “disciplinas vizinhas” e com outros tipos de fontes.

O fato é que, apesar de todas essas questões levantadas, o exercício da história do tempo presente está o tempo todo sendo “cobrado” entre nós profissionais da área, sobre seus posicionamentos e sobre os eventos recentes. É difícil ter uma análise imediata histórica, já que, a construção da narrativa histórica se baseia, principalmente, em uso de fontes históricas. É preciso mais do que uma reportagem para que possamos ter um pensamento crítico e historiográfico sobre determinado assunto.

ALGUMAS PECULIARIDADES DA HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE

A primeira, já abordada, está na própria definição. Contudo, esse desafio sobre estabelecer uma definição é atrelada a própria dificuldade de definição cronológica. Visto que, como própria história do tempo presente já nos diz, o tempo é recente, sendo difícil dimensionar quais são as permanências e rupturas. Ou seja, quais são os marcos que definem uma quebra de um paradigma historiográfico e o que ainda permaneceu na nossa atualidade, ficando difícil estabelecer critérios entre o que é passado e o que é presente.

Outras questões são de cunho metodológicos mesmo. Como é uma historiografia que pode fazer uso de várias fontes históricas no sentido qualitativo e, dentre elas, destacam-se o uso de história oral pelas próprias testemunhas dos eventos. Então, usar a memória como recurso para a narrativa é bastante comum. Isso significa dizer também que a história do tempo presente tem um caráter provisório, já que essa narrativa pode ser construída e reconstruída de acordo com os novos testemunhos e fontes encontradas.

E a respeito das testemunhas, uma das grandes críticas a esse tipo de escrita é que as temáticas que envolvem a história do tempo presente é a de que, quase sempre, elas são baseadas em grandes traumas sociais como o Holocausto na Segunda Guerra Mundial e Ditaduras. Essas testemunhas poderiam ter um viés mais vitimista, dificultando uma escrita mais crítica. É claro que o que aconteceu com os judeus e os militantes é algo totalmente repulsivo, mas, é importante neste momento, tentar saber separar suas ideologias dos acontecimentos, para ter uma dimensão mais amplificada dos eventos.

Apesar de todos esses impasses, a história do tempo presente é sim uma maneira de se escrever sobre nossa História, podendo ser associada a uma concepção mais crítica dos historiadores e a memória das testemunhas, aceitando suas particularidades, bem como a ideia de que são histórias ainda em curso.

Espero que tenham gostado deste post, pois, pretendo extrapolar essa temática para o próprio ensino de História no futuro.

Abraços virtuais!

Referência

DELGADO, Lucilia de Almeida Neves; FERREIRA, Marieta de Moraes. História do tempo presente e ensino de História. Revista História Hoje, v. 2, nº 4, p. 19-34 – 2013. Disponível em: https://rhhj.anpuh.org/RHHJ/article/view/90/70. Acesso em 16 mar. 2022

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